Até que chega a nossa vez
Martha Medeiros
Falamos sobre tudo e sobre todos, mas auto-conhecimento a gente ganha através do enfrentamento, e não tem especulações
Eu pensava assim: “se eu vir um acidente de carro na estrada, telefonarei para ambulâncias, pra polícia rodoviária, até por Lula, mas não terei coragem de parar e remover eu mesmo os feridos”. Sei, nem um pouco nobre.
Mas eu apostava mesmo que não teria estômago pra tanto. Até que um dia, na BR-101, aconteceu um acidente de carro bem na minha frente. Um choque entre um caminhão e um Chevette caindo aos pedaços, com umas sete pessoas dentro, entre elas duas crianças. Nada que precisasse de remoção com equipe especializada, mas era preciso socorrê-los. O que fiz? Saltei do carro em que estava, interrompi o trânsito e ajudei a distribuir os feridos entre os outros carros que se ofereceram para ajudar – as duas crianças e a mãe delas vieram comigo. Levei-as ao hospital (estávamos pertinho de Torres) e, apesar da sangueira, soube no dia seguinte que salvaram-se todos. Eu havia garantido meu lugarzinho no céu.
O que me ficou deste episódio, além do alivio de saber que não sou tão covarde, é que a gente nunca sabe nada, até que chega a nossa vez. Eu não sabia como iria reagir diante de um acidente, até que eu me vi testemunha de um. Assim como não sei como reagirei diante de um assalto, como reagirei diante de uma perda profunda, como reagirei diante de um bilhete premiado da megassena ou de um convite para um drinque com o Jude Laws. Palpites, tenho alguns. Mas certeza mesmo, nenhuma.
“Eu sofreria um ataque cardíaco se tivesse que saltar de um avião”.
“Eu jamais teria um caso extraconjugal”.
“Eu distribuiria metade do dinheiro se ficasse rico com a loteria”.
“Eu nunca aceitaria suborno”.
“Eu não suportaria ter um filho homossexual”.
Quem garante? São apenas defesas pré-programadas. A gente não sabe do que nosso amor é capaz, o que a nossa natureza nos reserva, o poder da nossa desobediência ou subordinação. A gente não pode prever nossa reação diante do susto, da paixão, da fome, do medo. Podemos vir a ser uma grata surpresa para nós mesmos.
Para fechar este assunto, recomendo o excelente Queda Livre, livro de ensaios do Otavio Frias Filho, que relata oito situações vivenciadas por ele. São experiências que ele jamais havia pensado em realizar, como saltar de paraquedas, ir a um clube de troca de casais, ser voluntário na CVV, percorrer a pé o caminho de Santiago de Compostela, ir à Amazônia para conhecer de perto a seita do Santo Daime e outras aventuras. São reflexões inteligentes, elegantes, bem-humoradas e que nos dão uma vontade imensa de, como ele, ir além da teoria. Porque falar, a gente fala sobre tudo e sobre todos, o que mais temos é opinião. Mas auto-conhecimento, mesmo, a gente ganha é através do enfrentamento, e não com especulações.
Domingo, 28 de março de 2004.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.